quarta-feira, 31 de julho de 2013

Um dia fui… criança

Era uma vez uma menina sonhadora mas com os pés mais na terra do que era suposto na sua idade. Vagueava em sonhos, de uns para outros, mas sempre com a pequena sensação de estar a ir longe de mais, quando na verdade, estava simplesmente no inicio de tudo que podia sonhar. Não era como as outras meninas, que adoravam bonecas e passavam horas e horas a enfeitarem-se com a maquilhagem da mãe. Não, era uma menina mais para o “Maria rapaz”, destruidora, adorava destruir esses brinquedos que toda a gente dizia serem próprios para a idade. Talvez por aí já se delineava um traço da sua personalidade, o de “espírito de contrariedade” que tantos apontavam desde tenra idade. Sim, isso mesmo, bonecas? Servem para se arrancar cabeças, braços, pernas e tudo que der para arrancar. Maquilhagem? Serve para pintar em folhas, fazer corações e flores com batom, muito melhor do que borrar a cara. Cozinhas e coisinhas dessas? Para que servem? Para passar umas quantas horas a mudar as coisas de lugar, a tirar daqui e por ali? Não obrigada. Era assim a menina, era assim que ela via esses brinquedos, coisas que faziam perder o tempo, porque eram coisas que só se podia tirar de um sitio para por noutro, e ela não achava piada nenhuma a isso ou a falar sozinha com as bonecas como via as outras fazerem. Falar sozinha? Eu sou pequena, muito pequena, aprendi agora a falar, mas já consigo entender que falar sozinha não tem piada. Quer dizer, tem, mas não nesse sentido de “olá boneca, tudo bem?” e receber um silêncio como resposta. E depois essa coisa de levar a boneca a passear? De fazer de conta que se dá comida? De fazer de conta que dorme? Para “faz de conta” já basta a realidade, dos grandes, dos pequenos, de todo o mundo. A pequena, essa menina a quem muitos chamavam de irrequieta, de chata, de teimosa, era simplesmente uma garota que não gostava de fazer uso do seu tempo com brincadeiras que achava sem sentido. Preferia estar quieta (olha o sentido do irrequieta) a ver as borboletas, que antes eram aos molhos. Preferia ir a correr feita tola atrás dessas mesmas borboletas, sendo que se esquecia que era trapalhona e as esborrachava nas mãos sempre que tentava apanhar alguma. Preferia andar de bicicleta, quando já podia, a alta velocidade até cair, espatifar-se no chão, chorar baba e ranho, ficar com os joelhos ensanguentados, do que andar por aí de mãos dadas com um nenuco. Se calhar já sabia inconscientemente que a dor de um joelho ferido era uma dor fácil de suportar, comparando com outras dores que se sentem. Cresceu assim, sendo apontada desde o primeiro “gugu dada”, mas sempre ciente que essa diferença era aos olhos dos outros, e que fazer o que os outros queriam, só porque queriam, não dava em nada. O que diziam ser teimosia mostrou ser principio. De nada vale fazer algo que os outros querem, se nós não queremos, só para agradar, isso não é bom para o nosso Ser, e essa é uma lição que tirei dessa criança, dessa menina, porque crianças sim, têm muito para nos ensinar, se estivermos dispostos a aprender, porque nos esquecemos do que fomos, do que éramos, do que sentíamos quando éramos crianças, julgamos as crianças como “parvas” esquecendo que um dia, também passamos por lá, também fomos assim, na sinceridade absoluta que hoje em dia se chama de estupidez, na inocência que hoje em dia é sinal de parvoíce, na lealdade que hoje simplesmente já não existe. É fácil esquecer, é fácil julgar, é fácil falar mal, mas se pusermos o nosso cérebro a funcionar, vemos que apesar de tudo, a criança que éramos, não tem orgulho no adulto que nos tornamos, nesse Ser oco e banal, de tão pouco valor. Seremos otários por ter vergonha da criança que fomos, ou seremos otários por termos vergonha da criança que fomos um dia? Vergonha é perder-se neste mundo, perder o que tínhamos enquanto criança. Ninguém nasce mau, ninguém nasce falso, ninguém nasce traidor, isso são lições, dão ensinamentos, são coisas que vamos guardando. São exemplos que se segue. Em criança, limitamo-nos a seguir os bons exemplos, há medida que crescemos, uns continuam a seguir os bons exemplos enquanto que outros, enfim, seguem o mau, que é mais fácil, dá menos trabalho e além do mais, acaba por infelizmente ser menos diferente…

Sim, eu fui uma criança cheia de manias, tinha mania de não gostar de bonecas, de não gostar de brincar à apanhada com as outras miúdas. Eu fui uma crianças que não gostava de perder horas a pôr um nenuco a dormir. Fui uma criança que preferia ir correr lá para fora, que preferia ir esmagar formigas ou andar à “bulha” com abelhas. Preferia ir tapar os buracos dos tijolos com massa mesmo sabendo que a seguir ir levar uma tareia. Preferia pintar fora do desenho do que dentro. Preferia ir jogar ao “atira disco” com o meu irmão do que me sentar no sofá a ver televisão. Preferia ir jogar bilhar com o meu irmão, mesmo mal chegando à mesa, do que ir brincar com as barbies que a minha tia me dava. E sim, tenho todo o orgulho em dizer que fui essa criança, Maria rapaz, que preferia fazer algo mesmo sabendo que ia levar do que brincar a coisas que não me alegravam. E apesar de não ter tido uma infância que me traga saudade, sei que fui uma criança normal por dentro, ou seja, inocente, boa, leal, amiga, com amor no coração. Resta saber o que essa menina esquecida pensa da pessoa que sou hoje…

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