O meu coração quer falar-te
Novembro 2011
Hoje é um daqueles dias em que não tenho a mínima capacidade de
ocultar, de tentar minimizar, esconder ou simplesmente fazer fita…
Não quero calar, não quero
guardar dentro feito túmulo fechado, não quero continuar com dor no coração e
sorriso na cara...
Eu não sou, nunca fui, e nunca vou ser, um exterior… eu sou o
meu próprio conjunto, dentro e fora, sendo que fora apenas espelha ou não o que
vai dentro… todos nós envelhecemos, ganhamos rugas, ficamos feios ou ainda mais
feios, o tempo trata de nos tirar os traços e altera-los consoante a idade,
todos nós, os que se acham bonitos, feios, gordos ou magros, acabamos por ficar
diferentes, cheios de rugas desde a testa à ponta do pé, todos envelhecemos e
ficamos com as marcas desse envelhecimento… e aqueles que olham para o
exterior, devem esquecer-se que aquela “boazona” ou aquele “pão”, mais tarde ou
mais cedo, acaba por ficar completamente ao contrário, aquele pão deixa de o
ser, aquela “gaja boa” deixa de o ser… então porque car**** insistimos nessa
treta estúpida de olhar para o exterior? Sabendo que muda, que inevitavelmente
muda, que podemos lutar contra tudo, menos contra isso...
Isto foi apenas uma introdução… quiçá, sem sentido ou nexo sobre
o resto que vou dizer, mas é minha, é meu, foi escrito por mim… para mim faz
sentido, e só isso me importa…
Introdução de certo modo curta, pelo muito que poderia dizer,
mas de ideia fixa e com contexto bastante claro… aliás, só não percebe quem não
quer, e gente dessa, que não quer perceber, sei que está o mundo cheio...
Mas voltando ao inicio, ao antes da introdução, tanta coisa para
dizer que hoje vou directa ao assunto, sem rodeios, sem panos quentes nem
frios, sem omissões, sem desenrolares que não levam a lado nenhum, e acabei por
fazer tudo ao contrário em poucas linhas!
Retomo agora a ideia, serena e com calma, leve num espírito que
a mim não pertence, atenuada e ressacada com a dor que me percorre a alma, que
me faz sentir arrepios daqueles denominados “a morte a passar”, numa paz que o
meu coração sente, e pelo simples motivo de que ele já não é meu, eu não
exagerei quando disse que o entreguei às mãos de outro alguém que não eu, e
depois de entregar algo como isso, a fonte da vida, o que mantém a vida, o que
faz respirar, após entregar, não há hipótese de retorno, não à volta a dar, não
o posso simplesmente pedir de volta, porque a mim já não pertence… o dono dele,
tem a hipótese de o querer ou não, se o quiser, óptimo, sei que cuidará bem
dele, se não o quiser, acarreta com ele levemente, sem dar por ele porque
também tem essa coisa de saber ser discreto, mas meu, já não é… de qualquer das
formas, para o melhor e para o pior, sei que o “meu” coração, está em boas
mãos, e isto sim, digo-o sabendo do que falo…
Bem, vamos lá ver se mais ninguém me interrompe com coisas
banais, papeis, cartas, e mil e uma porcarias que não fazem grande diferença,
para conseguir levar uma ideia até ao fim… se não, começo uma frase e
esqueço-me do que ia dizer no final!
O que me trouxe aqui, após
este tempo de “jejum”, foi algo bem mais forte que eu, algo que não depende de
uma vontadezinha, de um capricho, de um mimo, algo que não depende de mim, do
que acho, penso ou quero, não depende de mim nem é algo que simplesmente sinto
porque me apetece, porque acho bem, porque me parece melhor ou pior… há coisas
que a razão não muda, coisas que o pensamento não afasta, coisas que se sentem
e ponto final… não é questão de querer, de pensar que é assim que deve ser, são
coisas que não se controlam…
E eu não controlo o que vai dentro, não controlo esta ânsia
louca de te querer perto de mim, bem juntinho a mim… não controlo a vontade
avassaladora de sentir os teus braços em meu redor, num abraço que só em ti
encontro, naquele abraço que sempre disse ser mágico… eu posso ter feito e dito
muita burrice, mas nisso nunca… já provei outros abraços, em todas essas
alturas por algum propósito, mas nenhum se compara ao teu, nenhum tem
comparação, porque o teu não é só um abraço, é O ABRAÇO… aquele que me alivia o
peito, que me acalma toda a dor, que me faz sentir segura e dona do mundo,
aquele que me faz estremecer por dentro, que acelera o coração que já não é
meu, aquele que me faz sentir que ninguém me pode fazer mal porque tu estás lá,
aquele que me faz sentir intocável, feliz… sem qualquer dúvida, podendo parar o
tempo a meu favor, seria nesse preciso instante… nada mais me faria falta,
apenas o teu abraço, o teu toque, a tua presença, sentir-te assim, só, até as
pernas ficarem sem forças, até deixar de sentir os braços, horas e horas, dias
e dias, só tu e o teu abraço… há coisas que não dão para explicar, temo que
mesmo que continue a falar do que me está a correr as veias, jamais conseguirei
dizer uma linha que se aproxime do que vai dentro, mas uma coisa tenho a
certeza, o olhar não mente… e eu sei que os meus olhos só brilham, só sorriem,
quando tu estás presente, quando és tu… ainda agora, estive eu fora durante
algum tempo, fiz das tripas coração para não te procurar, tentei provar a mim
mesma que era capaz de te deixar minimamente sossegado, e na véspera de voltar,
bem, a ansiedade não me largava, a vontade de voltar era tão forte, mas tão
forte! Ninguém imagina o quanto me senti feliz por regressar, por muito
ridículo que possa parecer… eu só pensava na hora de abrir a porta e dar de caras
contigo, juro pela minha saúde (embora não seja grande coisa) que só me passava
isso pela cabeça… esperar que o elevador chegasse, coisa de 1 minuto se tanto,
foi penoso, parecia que o tempo tinha parado, parecia uma eternidade, e depois
desilusão, não estavas… ai sim, senti que o coração ia disparar na dolorosa
sensação de não te ver após tanto tempo de ansiedade...
Sabia perfeitamente que não
me ias falar, que não me ias sorrir, que não me ias receber como noutros
tempos, mas saber que te ia ver, que te ia poder olhar, mesmo que não passasse
disso, seria sem dúvida, o momento perfeito para mim...
Não tens noção do quanto permaneceste firme na minha cabeça, no
meu coração, nos meus dias, em tudo… confesso que isso me tornou, como sempre,
de certo modo “injusta” para todos os restantes “companheiros”… falo aqui de
quem esteve comigo, desde o amigo ao colega, porque eu não conseguia prestar
atenção a nada, não conseguia manter uma conversa longa, não conseguia
concentrar-me, porque a falta que me fazes, faz-me parecer que nada faz
sentido… não é à toa que vim de propósito à cidade só para te ver 5 minutos… já
te tinha dito isso, sei que sim, mas sem ti, nada faz sentido… acredita que não
é exagero, é pura realidade… e tive mais uma prova disso… pus a hipótese de me
afastar uns tempos, como fiz, porque pensei que isso poderia trazer algo menos pesado…
e o único resultado que obtive foi a certeza que já tinha, não dá para estar
longe de ti...
Mesmo em silêncio, mesmo que estejas cá sem estar (percebeste),
mesmo que não me fales, mesmo que não estejamos juntos, mesmo que as coisas
sejam como são, mesmo sem ter a tua presença naqueles momentos simples como um
cigarro, mesmo sem te poder olhar nos olhos, mesmo sem te ver sorrir, mesmo sem
conversarmos, mesmo com tudo isso, ter-te aqui perto, ver-te por aqui, sentir a
tua presença perto, sentir que estás aqui, faz toda a diferença, toda...
Eu não consigo desviar a atenção ou o pensamento, porque desde
cedo, foste tu que me prendeste a atenção… não é obsessão nem nada nesses
termos… mas em ti encontrei e senti sempre coisas tão bonitas, de tanto valor,
de tanta simplicidade bela… nunca senti, com ninguém, em outro lugar, coisas
como quando te vejo por perto… eu disse que não conseguia explicar, o que eu
sei é que fazes a diferença, quer seja por ouvir o tom da tua voz, queria seja
por te ver passar à minha frente, quer seja quando me presenteias
inesperadamente com coisas que me fazem palpitar de alegria, quer quando te
ouço suspirar (adoro quando fazes isso), quer seja quando o meu olhar te
alcança mesmo quando se tenta desviar, quer seja quando apanho o teu sorriso…
cada pormenorzinho, cada partícula minúscula, tudo, faz toda a diferença em
mim, para mim...
Percebi que afinal tinha mesmo razão… não me adianta andar a
enganar-me a mim mesma, a achar que tudo está bem quando não estou aqui, não
adianta fingir que estou igual a sempre, não adianta tentar não pensar, tentar
não sentir… porque a verdade é que quando não estás por perto, tudo muda...
Senti-me tão vazia, tão perdida, tão sem sentido nestes dias…
foi uma coisa que custou tanto, sentir-me assim dentro, sem nada que fizesse
valer o dia, nada que fizesse valer acordar, nada que tivesse sentido ou sabor,
nada que me fizesse olhar e pensar “isto sim, vale a pena”...
E agora, tudo mudou, tudo voltou ao normal… e não preciso de
grande coisa… ouvir o barulhinho do agrafador, das folhas que organizas tão
profissionalmente, ouvir o pousar das tuas canetas pesadas, as rodas da
cadeira… coisas tão pequeninas, mas que me alegram tanto cá dentro… e não é
pelos barulhos, como bem sabes, é por seres tu, é por saber que és tu, é por
saber que independentemente de tudo, estás a uns passos de mim...
Agora sim, vale a pena acordar, vale a pena vir para o meio das
avestruzes, vale a pena correr e saltar se for preciso, vale a pena andar a
correr de manha, vale a pena ouvir umas quantas parvoíces alheias, vale a pena
apanhar secas, vale a pena ouvir os outros calada para não explodir, até vale a
pena stressar com os montes de coisas que me deixam na secretária… e porquê?
Simples, muito simples… porque sei que aconteça o que acontecer, enquanto
estiveres a estes passos de distância, mesmo que não me procures e eu não te
procure a ti directamente, sei que estás, e isso faz toda a diferença, faz tudo
valer a pena… e eu procuro-te tantas vezes sem que te dês conta, já me acalmei
tantas vezes graças a ti sem que te apercebesses, já respirei fundo e ergui a
cabeça graças à tua presença… em todo e qualquer momento, tens feito a
diferença, na minha vida dentro e fora daqui, e isso, não faço qualquer questão
de esconder...
Aqui, basta olhar para ti quando posso, basta ouvir o som que
fazes na tua sala, basta ver-te passar (paisagem maravilhosa), basta ouvir-te
discutir com aqueles engenheiros de obras feitas, basta coisinhas assim… e
fora, nas conversas da treta desligo o fusível e penso nas nossas conversas
mais atabalhoadas como a do Nuno Gomes ou do Rui Jorge, nas companhias da borga
penso nas vezes que íamos tomar café após o almoço, em todo e qualquer momento,
tenho algo contigo para reviver, a às vezes parece mesmo que viajo no tempo,
parece mesmo que estou a viver tudo outra vez...
Neste tempo em que estive “fora”, recordei tanta coisa, tantos
pormenores pequeninos mas bons, óptimos… houve apenas um que me doeu, que me
custou, porque mesmo achando estúpido, comparei, e a comparar, senti-me
totalmente no oposto… como se fosse do paraíso ao inferno, como se tivesse
vivido essas duas épocas assim, tão distantes uma da outra… como é óbvio, falo
desse outro tempo em que estive fora daqui, acompanhada...
Mas uma coisa também é certa, tive muito tempo para
pensar, demais até… pus as ideias no lugar, pensei em tudo, passo a passo, o que
aconteceu, o bom e o mau, o que vivi, o que senti, o que esperei, o que tive,
tudo, ao pormenor… e após recordar cada detalhe, cada sorriso e cada lágrima,
cada pequeno e grande pormenor, definitivamente só me surgiram as seguintes
palavras na cabeça “eu tinha razão, sempre tive, só com ele por perto sou capaz
de me sentir bem, só com ele perto me sinto completa, só quando o vejo é que as
coisas fazem sentido, só o facto de o ver, tudo faz sentido e vale a pena”… e
por isso, alterando algo que já tinha dito, todo e qualquer dia vale a pena
pelo simples facto de te poder ver, de ter o privilegio de te ver de perto…
porque mesmo que me tirem tudo, mesmo que já não tenha tudo que um dia tive
(falo em coisas como a partilha de uma pausa e assim), mesmo sem nada disso, o
facto de ter a sorte de te continuar a ver, faz toda a diferença no meu peito...
Aqui podia falar de toda a barbaridade atroz que fiz, e
principalmente, que disse… mas também espero que lá no fundo saibas o porquê…
para além do que te disse, inveja, revolta por mim mesma e tudo mais, sabes,
melhor que ninguém, que nunca quis nada para mim, nunca desejei nada para mim,
nunca pensei muito no que queria para mim… em toda a minha vida, para além do
meu sonho de crianças, desejei apenas e só uma coisa… sabes que sim, quis com a
própria vida uma única coisa, e saber que jamais me pertenceria, como deves
imaginar, tirou-me muitas vezes de mim mesma… sempre achei demasiado cruel,
desejar unicamente uma coisa, e há primeira vez que de facto quero algo, pela
primeira vez que sinto que preciso de algo, que desejo mais que tudo, é-me negado
pelas leis da vida… é algo demasiado forte para conseguir lidar, pelo menos
para mim… nunca quis nada, e quando finalmente encontro algo que me leva a dar
a vida se fosse preciso, vejo que não posso… é de me por louca, como aconteceu
várias vezes… não é justificação para nada, mas é de coração…
Bem… e esse teu falar sozinho, o teu bater de mãos nos armários,
os teus passos fortes pelo corredor, o teu mandar vir sozinho porque não
imprimiste exactamente o pretendido, é tão bom poder ver tudo isso… tu não vês
porque estou de costas, porque se não, ias ver-me tantas vezes a sorrir
sozinha, feito tola… ainda hoje os sorrisos mais sinceros, aqueles que brotam
de dentro para fora, são culpa tua...
Não é que deseje que stresses, como é claro, mas até nisso é engraçado
de se ver… as tuas expressões de chateado, de isto “ai, isto não devia ser
assim”, o teu ir buscar de capas a fazer aquele barulhinho engraçado com a
boca, aquele “dasssss” quando o telemóvel toca… o teu suspiro, como eu adoro
ouvir o teu suspiro, é que não é igual nem parecido a nenhum outro, é o teu
suspiro… podia continuar até gastar a ponta dos dedos… há tanta coisa, mas
tanta coisa que embora não demonstre, não me passam ao lado, e pelo contrario,
simplesmente adoro poder ver...
Eu nunca poderei esquecer o que aconteceu, o que me fizeste
sentir, ver, descobrir e outras mil milhões de coisas… tu mudaste muito dentro
de mim, e se me aproximo cada vez mais de mim mesma, devo-o também e
principalmente a ti… não sou ingrata, sei que se não fosses tu, a esta hora,
seria talvez um monstro, se ainda existisse… tu fizeste muito, mas mesmo muito
cá dentro… não vou repetir tudo que me apetece repetir, e tu sabes porquê, mas
também não és totó e sabes melhor que ninguém que foste tu que fizeste toda a
diferença cá dentro, e que jamais poderei esquecer o que me ajudaste a
construir… porque foste o primeiro e único que me fez acreditar, que me fez
pensar, que me fez sentir, que me fez ver para além do que vista alcança… há
coisas que simplesmente levo comigo para a cova, não tenhas dúvidas disso… sei
que vou estar ligada a ti para sempre, quer queiras, quer não queiras, quer eu
própria queira, quer não… o que tu és para mim, mais ninguém o foi, e mais
ninguém o há-de ser… acredito e sei disso… aliás, basta veres o quanto foste
desde sempre diferente para mim, em tudo...
Eu não exagerei, de todo… “mesmo que tudo mude, o que és dentro
vais continuar a ser, não há substitutos, o teu lugar, é o teu lugar”… será que
isto já diz tudo? Creio que sim, quero acreditar que sim… nada nem ninguém se
compara ao que me fazes sentir mesmo sem fazeres nada, só por ai, acho que fica
tudo dito...
Funny… sempre que o tema é este, eu escrevo, escrevo, escrevo, e
apetece-me sempre escrever mais… e mais…