Entre os vários sons que a minha audição alcança, existe um
cujo tom é perfeito, como a mais bela sinfonia tocada, uma paz de espírito
neste meu espírito já pouco sereno e com pouca esperança. Som belo, calmo,
encantador, como o som das sereias que encantavam os navegadores (pelo que
dizem por ai). Como é perfeito esse som e ao mesmo tempo, como é raro
escuta-lo!
Apesar da distância entre tempo e som anteriormente
escutado, esse som que faz o meu coração ainda bater, existe bem dentro de mim.
Tiraram-me tudo, o tapete debaixo dos pés, mas esse som, ninguém foi capaz de
me arrancar do peito, ninguém será capaz de conseguir tal proeza.
O dia que o deixar de ouvir, temo, o meu coração deixará de
bater, no exacto momento em que o som se calar e o silêncio se fizer ouvir.
A pele eriça-se como se um arrepio de percorre-se a espinha
velozmente, como se estivesse a tomar um banho de água gelada só que com a
sensação de bem estar ao invés de mau estar, como se um anjo me falasse ao
ouvido, me sussurra-se palavras que ainda hoje me congelam o sangue de lembrar.
Por mais voltas que o mundo possa dar, uma coisa é certa,
esse som, esse fantástico som, permanece intacto em mim como se de um tesouro
se trata-se. O meu tesouro, aquele que guardo com sete chaves, aquele que
preservo mais que a própria vida, aquele que mesmo que aparentemente não me diz
nada, nas costas, defendo como nunca defendi outra coisa, o meu tesouro
perfeito, o tesouro que ninguém pode ousar tocar, nem em meras palavras, nem em
pensamentos, porque nesse meu tesouro, ninguém tem o direito de chegar perto.
Posso até parecer indiferente a tudo, de certa forma até
estou, a minha alma não tem mais estofo para mais do mesmo, para esperar e
acreditar, para esperar e seus afins, mas ainda assim, nunca perderei as forças
para defender o que valorizo desde sempre, mesmo que de frente me seja
indiferente ou despercebido, nas costas, nem pensar, não há momento algum nem
dor alguma que me faça por um único momento abandonar a minha própria defesa em
relação ao meu precioso tesouro.
Aliás, para mim é igual ao litro ouvir vozes egoístas, vozes
que falam sem saber, vozes que pronunciam palavras que se tornaram banais, é-me
igual ao litro ouvir vozes falar de mim, dos outros, da vida, do que for. A
única coisa que continuarei a nunca aceitar nem admitir é escutar vozes falarem
desse meu tesouro belo, isso nunca.
Esse som, que agora se cala, que agora é mais silêncio, que
infelizmente não me tem dado o privilegio de ouvir, continua a ser para mim, a
coisa mais importante da vida, a coisa onde ainda busco forças quando parece
não dar mais. Porque mesmo longe, o conforto que sinto por dentro continua bem
forte, no sítio onde sempre esteve e de onde jamais sairá.
A menos que me façam uma lavagem cerebral ou que me cortem
os pulsos, tudo está onde sempre esteve, tudo tem o seu sitio para estar,
apesar da confusão que habita no meu peito, as coisas mais importantes estão
organizadas, e mesmo que não as possa ter presentes por fora, tenho-as por
dentro, porque felizmente na minha mente ainda mando eu, nos meus sonhos e
vontades mando eu, mesmo que não passe de fantasias, sou eu e a minha maneira
louca de ser.
Vejo muito, ouço muito, dou conta de muito, muitos andam
cegos por uma ideia que metem na cabeça, outros há ainda que andam cegos por
supostos sentimentos que o coração não sente, ainda existe aqueles que não
conseguem ver um palmo à frente do nariz… mas no meio de tudo, há algo que
reconforta o peito, saber que não sendo a melhor pessoa do mundo, tenho algo
que muitos não têm, atenção. Atenção pelos detalhes, pelos pequenos pormenores,
pelo que mais importa. Não fui sempre assim, pelo contrário, também eu andei
cega muito tempo, mas por obra do destino, ou quem sabe, porque simplesmente
aconteceu assim, ouve algo que me fez crescer, abrir os olhos, tornar-me mais
ciente das coisas. Tenho um longo caminho pela frente, claro, estou muito longe
de onde quero chegar, mas orgulho-me de mim e é de peito cheio que digo que
hoje, felizmente, vejo o que muitos não vêem, apercebo-me das pequenas coisas
belas que existem e que parece que mais ninguém vê. E principalmente, sei o
valor que as coisas têm e o que merecem.
Não nego que o meu estado de espírito está em modo off,
foram muitas as magoas, as desilusões, as esperanças frustradas de ser o que
nunca fui para algumas pessoas, foram muitas as consequências do que o coração
sente, mas mesmo assim, mesmo em modo off, mesmo não parecendo, nada me passa
ao lado, nem mesmo um mosquito.
Sou agora, uma pessoa que absorva tudo e mais alguma coisa,
e de uma maneira ou de outra, um dia jogo com tudo que tenho absorvido por
agora.
Voltando ao começo do texto, sem sombra de duvidas, não é
uma voz dentro de mim que me fala, é um som perfeito, lindo, mágico, que me
reconforta nos piores momentos e que ainda hoje me faz sorrir com meros
pensamentos, com meras recordações, que sei que não passarão disso, recordações
de um tempo que não volta, de momentos que não se repetirão, de coisas que não
voltarão a acontecer, mas que felizmente aconteceram, deixaram marcas, marcas
belas. Tenho várias cicatrizes, mas tenho marcas maravilhosas que me orgulho de
ter dentro de mim, e balançando as duas coisas, sem dúvida, valeu a pena cada
passo, cada lágrima, cada derrota, cada pensamento, cada momento de desespero,
sem dúvida valeu a pena ter vivido o que vivi e da forma como vivi, e se o
tempo voltasse atrás, sabendo o que sei hoje, voltaria a fazer tudo igual,
cometendo os mesmos erros, aproveitando os momentos como aproveitei, faria tudo
tal e qual, uma cópia perfeita de tudo, sem tirar, sem por.
Percebi de forma dura que não adianta de nada correr atrás
do que não quer ser meu, porque o que realmente é meu, encontra o caminho até
mim. Seria o mesmo que tentar apanhar uma borboleta, ela acabaria por fugir,
tal como me fugiu tudo que um dia achei poder vir a ter.
E esse som que me acalma a dor cravada no peito, é neste
momento, a única coisa que me permite continuar a respirar, a única coisa que
me resta, e por isso mesmo, ficarei eternamente grata a esse som que guardo
dentro de mim, que me foi permitido guardar e fazer de meu, ao menos esse som…
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